Marcio Pochmann, presidente do Ipea, abriu a quarta e última noite do Curso de Economia para Jornalistas, em Vitória, com uma palestra que abordou a história do desenvolvimento brasileiro e terminou com um panorama dos novos desafios do País. Economia e desenvolvimento foi o tema da exposição.
Pochmann alertou, de início, que nem todos os países se desenvolvem, e que não há um só padrão de desenvolvimento. Ele citou três condições para um país ser considerado desenvolvido: ter moeda de curso internacional, utilizada além das fronteiras; ter capacidade de produção e difusão tecnológica, e possuir um aparato de defesa com poder de dissuasão. Como o Brasil não cumpre tais condições atualmente, é considerado periférico no capitalismo.
Em seguida, o presidente do Ipea explicou por que o Brasil se diferencia de outros países. Uma das razões é de ordem histórica e está vinculada à maneira como se deu a transição da sociedade agrária para a industrial. “Começamos a implantar a indústria automotiva quando o homem já estava chegando à Lua. A escola pública só começou a dar alguns passos na década de 1940. Na verdade, nem era pública, era estatal, para a elite branca”, lembrou.
Outra característica da trajetória de desenvolvimento brasileira é o fato de não ter incluído três reformas clássicas, realizadas em boa parte das nações centrais do capitalismo: a reforma agrária, a tributária e a social. “Quem ganha até dois salários mínimos mensais transfere em forma de impostos um salário mínimo. É uma coisa horrível que se faz no Brasil, tributar bens de primeira necessidade”, afirmou Pochmann.
Na segunda parte de sua exposição, o presidente do Ipea mapeou os desafios que o País deve enfrentar nas próximas décadas. “Ingressaremos, em duas décadas, numa fase em que a população começará a encolher. Hoje, a taxa de fecundidade já é de apenas 1,8 filho, o que não mantém a reposição populacional.” Ele lamentou que a demografia ainda não seja tema de debate no Brasil. “Se não nos preocuparmos com essas transformações, vamos gerar um ovo da serpente, com padrão de desigualdade muito maior que o de hoje”, disse.
Outro desafio imposto ao País é adaptar seu sistema de educação à sociedade do conhecimento e do trabalho imaterial. “É necessário postergar a entrada no mercado de trabalho. Educação pressupõe tempo para estudar. De 37 milhões de brasileiros de 15 a 24 anos, metade não estuda”, alertou o presidente do Ipea. Ele encerrou a apresentação ressaltando, porém, que o Brasil vive a oportunidade de dar um salto. “Mas precisamos de ações novas, como enfrentar questões demográficas e ausência de regulação nesse novo tipo de trabalho (imaterial e realizável em qualquer lugar)”, concluiu.
